terça-feira, 10 de agosto de 2010

Baile do Coração - Jennie Lucas


Baile do Coração




No sedutor calor do Carnaval do Rio de Janeiro, Ellie sucumbiu ao charme de seu carismático chefe, Diogo Serrado. No entanto, depois de possuí-la, o bilionário brasileiro não a quis mais... até descobrir que ela estava grávida. E Diogo não aceitaria nada menos do que o casamento. As noites com seu marido são passionais, mas o casa¬mento é vazio, e Ellie logo se descobre sem saída. O passado de Diogo enrijeceu seu coração de pedra... Será que ele conseguirá retribuir seu amor?
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CAPÍTULO UM


Grávida.
Enquanto Ellie Jensen subia as escadas do metrô, seu corpo ainda estava trêmulo. Ela ouvia os sons abafados dos motoris¬tas de táxi gritando palavrões e buzinando. Os ambulantes já montavam nas calçadas seus carrinhos de cachorro-quente e pretzels. Depois de um longo inverno, Nova York finalmente se rendera ao calor de maio.
Mas Ellie sentia frio até os ossos. Seus dedos dos pés esta¬vam dormentes havia horas, desde que fizera o teste de gravi¬dez, naquela manhã, e vira aquelas duas listras paralelas, cor de rosa.
Grávida.
Ela ia se casar em seis horas e estava grávida.
Do filho de outro homem.
O bebê de seu chefe.
Ellie parou subitamente na frente do edifício Serrado. Ela esticou o pescoço para olhar acima, o 13° andar, e o pânico a invadiu.
Diogo Serrado, o cruel magnata do aço, que a empregara ao longo do último ano, seria pai.
Não posso deixá-la grávida, querida. Ela ainda lembrava de sua voz sexy, naquela noite, ao som do batuque sensual do car¬naval do Rio. Ele sussurrara junto à sua pele: Não se preocupe, é impossível.
E ela acreditara nele!
Como é que ela pôde ser tão imbecil? Com sua história, como poderia ter caído no clichê mais antigo do mundo: uma garota inocente do interior, indo para a cidade grande e sendo seduzida por seu patrão arrogante, rico e sexy?
Ela deveria ter deixado a empresa no Natal, quando Timothy partiu. No mínimo, ela deveria ter dado o aviso prévio semanas antes, como prometera fazer. Mas estava sempre adiando, como se algo a impedisse de perder de vista a cidade que tanto amava, a vida que ela amava. O homem que ela...
Ela parou subitamente, diante de uma idéia.
Havia sido apenas uma paixão passageira. Uma paixão avas¬saladora, depois veio a sedução...
O coração de Ellie se contraiu quando ela olhou acima, para o céu azul, e viu os pássaros cantando. O ar estava quente. Era um mundo novo.
Mas a notícia de sua gravidez não transformaria Diogo em um pai, ela já sabia disso. O conhecido playboy só escolhia mulheres lindas e brilhantes. Ele saía com elas, as tratava como deusas, depois as descartava como se fossem sobras da noite anterior. Se mulheres assim não prendiam a atenção dele, não era de admirar que ele já tivesse esquecido Ellie, uma garota que abandonara o colégio ainda no ensino médio e usava roupas baratas, além de não ter nada de notável em sua aparência!
Diogo Serrado, um pai decente?
O cenário mais provável seria oferecer dinheiro para que ela fizesse um aborto.
— Oh... — Cobrindo o rosto com as mãos, ela o xingou em voz alta, fazendo com que os pedestres passassem apressados, desviando-se dela na calçada.
Por mais inconveniente que fosse o choque com a gravidez, Ellie já passara a amar imensamente o bebê. A criança era sua, sua família.
Mas Diogo tinha o direito de saber. Não?
Ellie cerrou os dentes. Ela atiraria de volta em seu rosto a mentira que ele dissera!
Empurrou a porta giratória do prédio e pegou o elevador até o 13a andar. Sua determinação a deixou rija ao passar pelas por¬tas de vidro do corredor.
— Está atrasada — disse Carmen Alvarez, quando ela passou por sua mesa. — Os números que você me deu, ontem à noite, estão todos errados. O que está havendo com você, menina?
Ellie sentiu o chão se mover sob seus pés, com uma onda de náusea. Ela quase passou mal duas vezes: no metrô e no trajeto quando vinha de seu minúsculo apartamento, em Washington Heights. Andava meio enjoada há meses. Isso deveria tê-la aler¬tado, mas ela dizia a si mesma que seu ciclo deveria estar desregulado. Ela não podia estar grávida. Diogo Serrado dera sua palavra! Não posso engravidá-la, querida.
— Está passando mal? — perguntou a sra. Alvarez, com os olhos estreitos. —Andou festejando a noite inteira?
— Festa? — Ellie deu uma risada fraca. Naquela manhã, quando ela finalmente conseguira fechar o zíper da saia preta risca de giz e abotoar a blusa branca, fora até a drogaria 24 horas para comprar um teste de gravidez com a garota cheia de espi¬nhas que ficava no caixa. — Não, nada de festa.
— Então, é algum homem — disse a mulher mais velha.
— Eu já vi isso antes. Espere bem aí. — Erguendo o dedo em alerta, a secretária executiva atendeu ao telefone. — Escritó¬rio de Diogo Serrado — disse ela, alegremente, virando para o lado.
Uma das secretárias juniores se aproximou e deu um tapinha no ombro de Ellie.
— Você viu a foto do sr. Serrado no jornal esta manhã? — perguntou Jessica, com seu sotaque meigo de sulista. — Ele levou a lady Allegra Woodville ao evento beneficente de ontem à noite. Ela é tão elegante e bonita, você não acha? Mas, também, ela vem da alta classe, como ele. Bem que minha mãe diz: a classe está no sangue. Ela sempre disse que é luxo... — ela olhou para Ellie, e continuou — ... ou lixo.
Ellie trincou os dentes. Ela nunca deveria ter confessado que tinha uma queda por Diogo, nem sua tristeza após o Rio.
Jessica só via seu emprego como um passatempo, até encon¬trar um marido rico, e já fazia tempo que ela estava de olho em Diogo. Ellie vinha tentando alertá-la, com sua própria mágoa.
Mas, em vez de aceitar o alerta, Jessica começou a espalhar boatos maliciosos pelo escritório. Ellie agora era desprezada por toda a equipe, que a achava uma vigarista querendo dar o golpe do baú. Ellie, uma vigarista! Ela, que nunca beijara um homem. Diogo a pegara, no Rio!
Graças a Deus que ela finalmente desistira de seu sonho. Acabou percebendo que a avó estava certa. Seu coração não era tão duro, nem moderno o suficiente para sobreviver à vida na cidade. Ela desistira.
Três semanas antes, finalmente dissera sim a Timothy.
No Natal, ele deixara sua prestigiada função de consultor geral de Diogo Serrado, subitamente decidindo atuar como ad¬vogado em sua pequena cidade natal. Ele pressionara Ellie para que partisse com ele, mas ela se recusara.
Porém, depois de hoje, ela nunca mais teria de ver Nova York outra vez. Nem Diogo. Ela estaria casada com um homem segu¬ro e respeitável, que a amava. Um homem em quem ela poderia confiar.
Isso presumindo que Timothy ainda fosse querê-la depois de saber que ela estava grávida, esperando o filho de outro homem.
A sra. Alvarez desligou o telefone e se virou para Ellie:
— Eu não sei o que você tem feito em seu tempo livre, mas seu trabalho está inaceitável. Essa é sua última chance...
A voz profunda de Diogo a interrompeu, vindo pelo interfone sobre a elegante escrivaninha de madeira escura.
— Sra. Alvarez, venha de uma vez.
Uma onda de pânico percorreu Ellie, diante do som da voz dele, fazendo com que seu coração quase pulasse do peito.
— Sim, senhor — respondeu a secretária executiva, depois soltou o botão do interfone. Seus olhos críticos varreram o rosto pálido e suado de Ellie. — Preciso que você elabore um rela¬tório da Changchun Steel, em dólares. — Como Ellie não se moveu, ela disse. — Ande logo, menina.
— Não — sussurrou Ellie.
A sra. Alvarez se virou de volta, surpresa e zangada.
— O que foi que você disse?
Trêmula, porém determinada, Ellie encarou a mulher mais velha.
— Eu realmente preciso vê-lo.
Ela pareceu aturdida.
— Certamente, não!
— Deixe-a ir — sussurrou Jessica, entredentes. — Quando ele a vir com esse vestido fuleiro, vai despedi-la, com certeza.
Ignorando o comentário maldoso, Ellie foi andando em dire¬ção à porta do escritório.
— Pare aí mesmo! — Transbordando de ódio, a mulher mais velha entrou na frente dela, com o dedo em riste para Ellie. — Essa foi a gota d'água. Não sei quem você pensa que é; mas não é ninguém. Já estou cheia de sua incompetência, de sua insolência! Pegue suas coisas. Você está despedida!
Desesperada, Ellie empurrou a sra. Alvarez para passar e en¬trar no escritório de seu bilionário chefe.

Diogo Serrado estava numa semana infernal.
Depois de trabalhar ininterruptamente e gastar milhões de dólares, sua oferta para a aquisição da Trock Nickel Ltd. aca¬bara de fracassar.
Porque ele havia perdido seu aliado no quadro de diretores deles. Porque perdera uma reunião importante. Porque sua se¬cretária júnior anotara o horário errado.
E esse havia sido apenas o erro mais recente de Ellie Jensen. Ao longo das últimas semanas, ele vira sua performance profis¬sional despencar a níveis ridículos. Ele a vira chegar tarde, sair cedo, tirar longos horários de almoço e passar tempo demais no banheiro, se escondendo.
Provavelmente, chorando.
Xingando entredentes, Diogo levantou de sua mesa e começou a andar de um lado para o outro, em frente às vidraças com vista para os arranha-céus do sudeste de Manhattan e o Battery Park. Por um instante, ele encostou a testa no vidro fresco, olhando para a baía de Nova York, vendo a Estátua da Liberdade, ao longe, contornada pelo céu claro da manhã. Apesar da inexperiência da srta. Jensen e da forma como ele a contratara, sem sequer conhecê-la, segundo a recomendação de seu advogado, ela lhe pareceu ter potencial sufi¬ciente para que ele a levasse para o Rio, para um negócio importan¬te, quando a sra. Alvarez havia ficado doente. Ellie Jensen estava se tornando um patrimônio valioso em seu escritório.
Foi pena que ele cometera o engano de seduzi-la.
Diogo cerrou os dentes. Biskreta, ele jamais deveria tê-la le¬vado para o Rio. Deveria tê-la despedido no Natal, junto com aquele ex-advogado traiçoeiro.
Seu corpo ficou tenso só em lembrar da expressão no rosto claro de Timothy Wright quando Diogo descobriu o que ele ha¬via feito.
— Deveria me agradecer, sr. Serrado — disse ele, astutamen¬te. — Eu lhe poupei milhões de dólares.
Agradecer? Aquele homem merecia arder no inferno.
Diogo também deveria ter despedido Ellie. Por que confiar numa mulher que era amiga de Wright? Mas a consciência de Dio¬go não lhe permitiu despedi-la, por achar que isso seria injusto.
E talvez, ele se forçou a admitir, talvez ele gostasse de tê-la no escritório. Ao contrário da maioria das secretárias, ela sem¬pre agia alegremente, e era gentil. Não era inclinada à fofoca. Iluminava o escritório.
Até que ele dormiu com ela.
Diogo trincou os dentes. Ele soubera que a garota acabara de chegar do interior, porém, como ela tinha 24 anos, nunca lhe ocorreu que ainda fosse virgem. Se soubesse, ele jamais a teria tocado. Virgens estão fora de questão. Elas levam o sexo a sério demais. Vêem isso como um relacionamento, geralmente são tediosas na cama.
Mas Ellie Jensen fora docemente deslumbrante. Com aque¬les olhos azuis, os cabelos louros angelicais e o corpo cheio de curvas, como uma modelo de trajes de banho, ele naturalmente
maeinou que ela tivesse experiência. No calor e na cobiça do carnaval do Rio, ele agira por impulso. Ah, mas foi uma noite e tanto... Ficara excitado, só em pensar.
Mas não, acabou. Há muitas mulheres bonitas no mundo, e ele não tinha o menor interesse em partir corações inocentes. Nem de incentivar garotas ingênuas do interior a pensarem que podiam domá-lo.
Ele ouviu uma confusão na porta do escritório. Irritado, aper¬tou o botão do interfone pela segunda vez.
— Sra. Alvarez, qual é o motivo do atraso?
A porta subitamente foi escancarada, batendo ruidosamente contra a parede. Ele olhou acima, com o maxilar contraído.
— Finalmente. Por favor, faça uma carta...
Mas em vez de sua secretária competente Diogo viu a ruína de sua existência. A mulher cuja beleza e inocência lhe custara um negócio de 1 bilhão de dólares.
— Preciso lhe falar! — disse ela, ofegante, relutando com a sra. Alvarez. — Por favor!
— Srta. Jensen — disse ele, severo, depois a olhou mais atentamente.
Seus cabelos louros estavam presos num rabo de cavalo em desalinho e havia olheiras em seus olhos, como se ela não tives¬se dormido. Sua testa estava pálida, como se estivesse doente. Ela estava com uma aparência realmente horrível, e seu vestido largo a fazia parecer ter engordado 10 quilos da noite para o dia. O que acontecera com sua caprichosa secretária júnior?
Por dentro, Diogo se retraiu. Ele deveria ter esperado por isso. Sem dúvida, a garota pretendia, chorosa, confessar seu amor por ele, depois implorar por um compromisso.
Exatamente o que ele queria evitar. Ele até gostaria de man¬tê-la como amante por mais tempo, mas se negara a esse prazer. Ele propositalmente a ignorara, torcendo para que ela percebes¬se que eles não tinham qualquer possibilidade de um futuro.
Isso havia sido difícil para ele, trabalhando no mesmo escri¬tório. Ao vê-la em seu cubículo, não havia nada que ele quisesse mais do que arrastá-la para seu escritório e fazer amor com ela em cima da escrivaninha, junto à parede, em seu sofá de couro. Mas ele se continha, estava tentando ser nobre. E esse fora o resultado: três meses sem uma mulher em sua cama, e agora um negócio de 1 bilhão fracassado.
— Eu sinto muito, senhor — disse a furiosa Carmen Alvarez, ofegante, ainda puxando a manga da moça. — Tentei impedi-la...
— Deixe-nos, sra. Alvarez — disse ele, baixinho.
A mulher mais velha ficou de queixo caído.
— Mas senhor...
Ele lançou um olhar que a fez imediatamente sair e fechar a porta.
Diogo colocou as pontas dos dedos sobre a mesa de madeira escura.
— Sente-se, srta. Jensen.
A moça nâo se mexeu. Cruzando os braços, ela o olhou, amarga.
— Acho que pode começar a me chamar de Ellie, não acha? Ellie?
Ele jamais seria tão pouco profissional referindo-se a um membro de sua equipe pelo primeiro nome. A sra. Alvarez já era sua secretária executiva há mais de dez anos mas ele nem so¬nhava em chamá-la de Carmen. Mas, por outro lado... ele nunca havia se apoderado de seu corpo, no calor do carnaval do Rio, beijando-a, no meio da loucura coletiva cheia de sensualidade... Ele afastou esse pensamento.
— Sente-se — repetiu ele, e dessa vez a menina obedeceu. Os joelhos dela tremiam quando ela sentou na poltrona de couro, de frente para a escrivaninha dele. Ela estava de braços cruzados, parecendo infeliz, até doente. Isso o deixou inquieto. A expressão nos olhos dela o perturbou, o fez se sentir culpado.
Ele lamentou essa sensação. Droga, ele não sabia que ela era virgem! Se soubesse, jamais a teria tocado!
No entanto, seria melhor falar agora. Obviamente, seu silên¬cio não passara o recado. Nem o fato de que ele saíra com outras mulheres, embora tivesse sido em eventos de caridade, nada de prazer.
Ele teria de ser bruto. Informá-la de que não tinha qualquer intenção de se fixar com mulher alguma, por mais meiga e pura, ou boa na cama, que ela fosse.
Com alguma sorte, Ellie aceitaria sua decisão. Ela voltaria a ser uma secretária competente. Ele tinha que lhe dar uma chan¬ce... Apesar disso, se outro membro de sua equipe tivesse come¬tido um erro que lhe causasse um prejuízo de 1 bilhão de dóla¬res, ele teria despedido a pessoa, sem nem ao menos pensar!
Mas ele não conseguiu fazer isso com Ellie. Não depois de tê-la seduzido no Rio. Não depois de ter tomado a inocência da única moça de coração puro que ele conhecera em Nova York.
Ele a olhou, abaixo.
— O que deseja discutir comigo, srta. Jensen? O que é tão importante que a fez quase brigar com a sra. Alvarez?
Ela engoliu em seco.
— Eu preciso... lhe dizer algo.
— Sim?
Ele se preparou para ouvi-la dizer que o amava, que não po¬dia viver sem ele e queria que fossem morar juntos, ou alguma tolice desse tipo. Já ouvira tudo isso antes.
Em vez disso...
— Eu estou indo embora. — Ela lambeu os lábios. — Pedin¬do minha demissão. Imediata.
O alívio o percorreu, depois... Profundo arrependimento.
Arrependimento? Mas que ridículo. Ele estava apenas surpre¬so, só isso. E lamentava muito perder uma secretária competente. No entanto... Ele se sentou pesadamente na cadeira.
— Lamento ouvir isso. Mas compreendo por que quer ir em¬bora. Eu vou lhe escrever uma carta de referência e você será contratada por qualquer empresa na cidade.
— Não. — Ela sacudiu a cabeça. — Não entende. Não preci¬so de suas referências. Eu vou me casar.
Ele a encarou, chocado.
— Casar? — O centro do peito dele ficou frio. — Quando?
— Esta tarde.
Cedo assim? As mãos dele se contraíram.
— Mas que rápido.
— Eu sei.
Ele respirou fundo. Durante todos esses meses ela não estava chateada por causa dele. Ele não havia magoado Ellie ao sedu¬zi-la. Desde então, ela só estivera distraída por algum romance novo e inflamado. Diogo deveria estar contente.
Mas algo como uma fúria repentina percorreu seu corpo. Sem qualquer motivo, ele subitamente teve o ímpeto de dar um soco no homem que em breve teria Ellie Jensen na cama, todas as noites, murmurando seu nome. Dando a ele seu corpo... Ele contraiu o maxilar.
— Quem é ele?
Ela endireitou a postura na cadeira.
— Você realmente se importa?
— Não. — Ele contraiu o maxilar novamente. — Não me importo.
Ela o encarou por um longo instante.
— Realmente não se importa mesmo, não é? — sussurrou ela, depois sacudiu a cabeça. — As mulheres são permutáveis para você. São úteis apenas para organizar sua agenda, fazer seu café e esquentar sua cama.
Esquentar a cama dele? Se ele tivesse seguido seus próprios desejos, ele a teria tido em sua cama todas as noites pelos úl¬timos três meses. Diogo tentou lembrar por que não o fizera. Algo relacionado a ser nobre. Ele xingou entredentes. Deveria tê-la desfrutado. Agora perdera essa chance, para sempre.
Ele fora substituído com tanta facilidade!
Diogo jamais havia passado pela experiência de ser deixado por uma mulher que ainda desejasse. Essa era a recompensa por fazer a coisa certa? Ver seu prêmio sendo levado por outro homem?
Ele se inclinou à frente, contendo sua fúria, pressionando os dedos sobre a mesa.
— Útil, srta. Jensen? Sua distração com seu caso de amor acaba de me causar a perda do negócio com a Trock...
— Eu lhe disse para me chamar de Ellie! — gritou ela. — E eu não terminei!
Sentindo-se como um santo, ele cruzou os braços e se forçou a esperar.
Lentamente, ela se levantou. Havia um brilho de lágrimas nos seus olhos. Ela pareceu oscilar com a emoção.
— Eu lamento sobre o negócio com a Trock, Diogo. Mas há algo que você precisa saber. — Ela falou tão baixinho que ele mal conseguiu ouvir. — Eu... vou ter um bebê.
O choque que ele sentiu passou a ficar insuportável. Um bebê?
Ellie estava grávida. Do bebê de outro homem.
Por um segundo, ele não conseguia nem respirar. Ele escutou o eco de uma voz feminina, muito tempo atrás, implorando, em português.
— Case-se comigo, Diogo. Você se casa? — Depois, a voz de um homem, na mesma língua. — Receio que ela esteja mor¬ta, senhor. Apanhou até morrer...
— Diogo?
A voz de Ellie o trouxe de volta ao presente. Grávida. Isso certamente explicava o peso que ela ganhara e o tempo que passava no banheiro. Ela não estava sofrendo, aos prantos. Era enjôo matinal.
Grávida. Ellie estivera na cama com outro homem. As per¬nas dela haviam se entrelaçado às dele, enquanto o puxava para ela, gritando de prazer e êxtase. Quantas vezes eles teriam feito amor para que ela estivesse grávida? Três vezes por semana?
Três vezes por dia?
A raiva voltou com força total, superando o choque que ainda reverberava. Desde que haviam regressado da viagem, ele se mantivera celibatário, como um monge, empenhando-se noite e dia para montar o negócio com a Trock. E enquanto ele esta¬va se culpando por tirar a virgindade da pobre moça inocente, ela havia tranqüilamente passado de sua cama para um caso de amor ardente com outro homem. Como se sua noite com Diogo tivesse sido apenas um simples passo para coisas melhores. Ela estava grávida.
Noiva.
E ia se casar apressadamente.
Subitamente, ele viu a situação sob uma nova perspectiva. E puxou o ar. Virando-se para encará-la, curvou os lábios, numa expressão de escárnio.
— Ellie, você representou bem, não? Fazendo o papel de ga¬rota meiga e inocente. Mas quando percebeu que me dar sua vir¬gindade não valeria a pena, rapidamente passou para o homem seguinte, não foi? Você acidentalmente engravidou. Imagino que ele seja muito rico. Parabéns!
O queixo dela caiu. Ela o encarava chocada, com os olhos imensos e azuis, como uma tempestade sobre o Atlântico.
— Acha que eu engravidei de propósito? — sussurrou ela. — Que eu forçaria um homem a se casar comigo por causa de um bebê?
— Acho você esperta — disse ele, friamente. — Todo esse tempo eu a achei muito diferente do restante, mas você é apenas melhor no jogo. Biskreta, você é a atriz mais talentosa que eu já conheci.
— Como pode pensar isso?!
— Estou apenas curioso para saber quem é o pobre tolo — disse ele, cruelmente. — Diga-me. Quem é o idiota que caiu em sua armadilha?
Ele viu as lágrimas nos olhos dela. E endureceu o coração diante das falsas lágrimas, que ela sem dúvida fabricava confor¬me sua vontade. Ele não a deixaria fazê-lo de tolo. Nunca mais! Por três meses ele se preocupara com seus sentimentos. Até se negara a levá-la para a cama, pois estava tentando protegê-la. E todo o tempo ela estivera apenas tramando para ter um anel de diamante no dedo!
Os olhos azuis o fitavam, em meio a uma nuvem de lágrimas.
— Acha que somente um idiota se casaria comigo? — disse ela, engasgando.
— Isso mesmo — disse ele, friamente. — Somente um tolo se casaria com uma mulher que deliberadamente o colocou numa armadilha, usando uma gravidez.
As lágrimas transbordaram.
— Mas que atriz — disse ele, asperamente. — Uma bela performance.
Olhando diretamente para ele, ela deu uma risada amarga em meio às lágrimas.
— Você nunca vai engravidar uma mulher, não é, Diogo? — disparou ela. — Você se assegurou disso.
— Sim, é verdade. — Ele mostrou os dentes, no que pareceu um sorriso. — Nunca conheci uma mulher em quem pudesse confiar por mais tempo do que demorei para seduzi-la.
Ela puxou o ar pela boca.
— E isso é tudo que tem a me dizer? — sussurrou ela. — De¬pois de ter me seduzido e tirado minha virgindade? Depois de três meses de silêncio, você não tem nada a me dizer, exceto insultos?
Um tremor de emoção indesejada percorreu Diogo. Ele afas¬tou esse sentimento. Ellie Jensen queria dar o golpe do baú. Se¬ria ridículo da parte dele ficar tão surpreso com isso. A cidade era cheia dessas mulheres que estavam apenas fingindo ter uma carreira enquanto tentavam encontrar um homem rico.
— Eu tenho uma pergunta, sim — disse ele. — Por que você ainda está aqui, em meu escritório? Pediu demissão de seu emprego sem dar aviso prévio. Ótimo, pois se tornou uma péssima secretária. Fico contente que vá embora. Então, por que ainda está aqui? Teme que seu casamento seja insatisfató¬rio e já quer arranjar um amante? Lamento, mas não saio com mulheres casadas.
Ela limpou as lágrimas, enfurecida.
— Você é asqueroso!
— Não, querida. Você é. Como minha funcionária, eu a res¬peitei. Mas estava errado. — Errado sobre muitas coisas. Pri¬meiro, por conta de Timothy Wright, agora, sobre Ellie. Subita¬mente exausto, Diogo esfregou a nuca. — Vá, Ellie, apenas vá.
Ela recuou, como se fosse um prenuncio antes da tempestade.
— Não se preocupe, Diogo — disse ela, baixinho. — Você nunca mais me verá.
A acusação em seus adoráveis olhos azuis o fuzilaram. Ele se sentiu perturbado de uma forma que não saberia explicar. Mas o momento foi interrompido por uma batida na porta. Um guarda de segurança estava ali.
— A srta. Alvarez me chamou, sr. Serrado.
— Sim. Acompanhe a srta. Jensen até a saída — disse Diogo, desviando o olhar. — Saia, Ellie. Boa sorte.
— Boa sorte — repetiu ela. — Adeus.
Ele olhou para cima, mas a porta já tinha se fechado atrás dela. Sozinho em seu escritório, ele respirou fundo e apoiou a cabeça nas mãos. Tentou trabalhar, mas não conseguiu. Depois de uma hora, desistiu. Ligou para uma linda atriz e a convidou para almoçar.
Quando estava no meio de seu martíni e filé, ocorreu que o filho de Ellie poderia ser dele.

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